24/10/2003 - 18:36 | Edição nº 284
LIVROS

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De lupa no passado

O romance policial histórico, gênero híbrido em que os detetives atuam em outros séculos, invade as prateleiras BEATRIZ VELLOSO

 

 

 

 

 

Sherlock Holmes invadiu o passado. Dois gêneros literários se unem num filão que, apesar de não ser novo, nunca viveu dias tão prósperos. É o romance policial histórico, que mistura detetives e reconstituição de época. Há desde mortes na Grécia Antiga até investigadores na Rússia czarista do século XIX. Isso sem deixar de passar por crimes insolúveis na Idade Média e assassinatos em série durante a corrida do ouro, na Califórnia. Nos Estados Unidos, a crítica elogiou The Dante Club , cuja ação se passa em Boston, em 1865 (no livro, um grupo de tradutores de Dante é surpreendido por mortes que lembram as punições descritas no Inferno da Divina Comédia ). Há uma justificativa para os lançamentos no gênero híbrido: tanto o romance policial quanto o histórico têm público fiel e leitura garantida. É a união de dois estilos que vendem bem.

                       

Maior prova do sucesso da fusão dos detetives com o passado é O Nome da Rosa , de Umberto Eco, em que um frade investiga o assassinato de sete monges na Itália do século XIV. Lançado em 1980, o livro vendeu 25 milhões de exemplares pelo mundo. Outros autores seguem pela mesma estrada, e alguns são mais bem-sucedidos que outros. Um dos melhores da 'escola' é o russo Boris Akunin, da série As Aventuras do Detetive Fandórin . O protagonista desvenda casos na Moscou pré-revolução bolchevique. Akunin une tramas bem armadas a uma bela pesquisa. 'Visitei arquivos públicos, li jornais daquele período, consultei historiadores, pesquisei como as pessoas se vestiam', diz, em entrevista a ÉPOCA. 'Mas há elementos de ficção e anacronismos intencionais, para lembrar ao leitor que ele não deve levar nada muito a sério.' Para Akunin, a graça de desenvolver a narrativa no passado é estilística. 'Sou fascinado pelo período, pela literatura russa do século XIX. É um prazer tentar imitar o charme daqueles tempos.'

Esse tipo de ficção, no entanto, gera controvérsia. Há quem acredite que transportar a ação para outros séculos é recurso para esconder textos precários e enredos inconsistentes. 'Que interesse há numa história policial que se passa na Grécia Antiga?', questiona Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor da série de livros estrelados pelo detetive carioca Espinoza. 'Salvo exceções, isso serve apenas para dar um aspecto pitoresco, e quase sempre encobre alguma falha da obra.'

 

O raciocínio tem fundamento. O romance policial surgiu em meados do século XIX, e o primeiro escritor a criar um detetive nos moldes modernos foi Edgar Allan Poe, nos três contos protagonizados por Auguste Dupin ( Os Crimes da Rua Morgue , O O Mistério de Maria Roget e A Carta Roubada ).

Agatha Christie situou uma de suas tramas no Egito Antigo

Dupin apareceu em 1841, período em que as metrópoles cresciam rapidamente. 'A violência urbana, a multidão que permitia ao assassino desaparecer sem deixar pistas e a criação de uma polícia organizada estimularam o novo gênero', explica Pina Coco, professora de literatura da PUC do Rio de Janeiro. A partir daí, o romance de detetive esteve intimamente ligado às grandes cidades. Os maiores investigadores da literatura são figuras urbanas - dos pioneiros Dupin e Sherlock Holmes até a recém-surgida dupla Patrick Kenzie e Angela Genaro (personagens do escritor americano Dennis Lehane), passando pelos heróis do romance noir das décadas de 30 e 40, como Sam Spade, Nero Wolfe e Philip Marlowe.

Como, então, justificar uma trama que se passa na Idade Média ou na Jerusalém de 2 mil anos atrás? 'O romance policial já sofreu muitas transformações e hoje não tem mais fórmula definida, permite variações', diz Flávio Carneiro, autor de O Campeonato , em que o jovem investigador André desvenda, por meio de um jogo, um caso de desaparecimento. 'A partir dos anos 50, surgiram os detetives por acidente, os investigadores infantis e até as paródias de detetive.' Agatha Christie arriscou-se pelo Egito Antigo em E no Final a Morte , de 1945. Até no Brasil, onde o gênero não tem grande tradição, houve incursões pelo passado. A mais famosa é a de Jô Soares, no Rio do século XIX, com seu Xangô de Baker Street . Em todos esses livros, brasileiros ou estrangeiros, o grande mistério a elucidar é se a obra vale a pena ou não. E o melhor detetive é sempre o leitor.

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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