Compartilhar

 

                                         

 

 

 

 

 

 

08/08/2008 - 18:36 | Edição nº 284

Quando os arapongas vão às compras

ÉPOCA teve acesso à auditoria nos gastos secretos com cartões corporativos da Abin. Ela revela descontrole no uso, despesas inexplicáveis e notas fiscais frias

Rodrigo Rangel

O mesmo texto aparece na justificativa para outros dois pagamentos, de R$ 20 mil e R$ 30 mil, feitos a supostas fontes. A prestação de contas não passa disso. Não há nenhuma anotação sobre a investigação a que os pagamentos estavam relacionados, nem sobre a qualidade das informações repassadas pelas fontes. Em resposta ao TCU, a Abin argumenta que, embora os auditores não tenham acesso a essas informações, os chefes imediatos dos agentes envolvidos monitoram o desempenho das fontes. Para os auditores, entretanto, essa explicação não é suficiente. Eles propõem a adoção de um “código que permita a identificação da missão do favorecido (no caso, o agente que recebeu o dinheiro para repassar ao informante), ainda que por codinome”.

 

 

 

 

 

 

 

 

                       

A Abin costuma gastar, por ano, cerca de R$ 1 milhão com pagamento de informantes no Brasil e no exterior. Há informantes regulares, que recebem pagamentos mensais da agência, e outros eventuais. No caso dos informantes estrangeiros os pagamentos são feitos em dólar. Nem sempre a qualidade das informações vale o que se paga. “Quando fui diretor, cortei vários informantes da folha de pagamentos simplesmente porque eles não estavam rendendo informação”, diz Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretor da agência entre 2004 e 2005.
 
A Abin gasta cerca de R$ 1 milhão com informantes, mas as informações muitas vezes são inúteis

 

 

 

Em outra situação relatada pelos auditores, a agente M.M.C. sacou, de uma só vez, R$ 278.500. A prestação de contas, desta vez, veio na forma de notas fiscais. Uma delas, no valor de R$ 96 mil, diz respeito à compra de oito licenças de uso de um software para criptografar ligações de telefones celulares. As licenças foram compradas da empresa Ronam Internacional, em São Paulo. Por cada uma, a agente pagou R$ 12 mil. Dezesseis dias depois, nova compra. Mais 14 unidades da mesma licença, por R$ 168 mil. A nota fiscal foi emitida em nome de um outro agente da Abin, O.G. Um detalhe chamou a atenção dos auditores: embora tenham se passado 16 dias entre uma compra e outra, as notas fiscais são seqüenciais. Uma delas leva o número de ordem 969. A outra, 970. “Será que essa empresa não vendeu nada para mais ninguém nesse período?”, indaga uma fonte ligada à investigação, ouvida por ÉPOCA. Novamente, os técnicos ficaram impedidos de averiguar a necessidade da compra. Só tiveram acesso a uma justificativa genérica anexada pela agente: “Justifica-se a aquisição de bloqueadores, em caráter de excepcionalidade, para telefone celular, com a finalidade de preservar servidores e fontes envolvidas em operações de caráter sigiloso, particularmente, com organizações criminosas e terrorismo internacional (...), e resguardar informações de caráter secreto, que poderão comprometer o desenvolvimento e a operacionalização dessas ações”, diz o texto.

Pela norma que rege seu uso, o cartão corporativo só deve ser usado para pagar despesas eventuais da administração pública. Não foi o que os auditores verificaram na Abin. Há dribles até na Lei de Licitações, segundo a qual despesas acima de R$ 8 mil devem ser objeto de concorrência pública. Os auditores descobriram casos em que, quando o valor do serviço ultrapassava esse limite, os responsáveis pelas finanças da agência fracionavam o pagamento. Assim foi feito para contratar, sem licitar, despesas corriqueiras, como manutenção de veículos e fornecimento de material de escritório. O documento do TCU relaciona vários gastos que deveriam ser enquadrados como “ostensivos”, ou não-secretos, e acabaram jogados no rol dos sigilosos. É o caso da compra de um monitor de LCD numa loja de nome pitoresco para a situação, Missão Impossível Ltda., localizada no bairro de Santa Ifigênia, em São Paulo. Nessa mesma linha, há a compra de 12 passagens aéreas de ida e volta entre Brasília e Washington, em novembro de 2005. Os bilhetes foram adquiridos numa agência de viagens de Brasília, por R$ 26.932,31. Como a despesa está enquadrada como secreta, o TCU não tem como saber a que se destinou a viagem. Outra despesa que caiu no balaio do segredo é o pagamento de R$ 5.175,80 à Churrascaria Porcão, em Brasília, em outubro de 2003.


 

 

A auditoria do TCU flagrou, também, notas frias em meio às prestações de contas. Foi o caso de uma nota supostamente emitida em outubro de 2006 por uma loja de decoração do Rio de Janeiro, no valor de R$ 600. O TCU pediu informações à Receita estadual e descobriu que a empresa simplesmente não tinha autorização para emitir nota. O mesmo aconteceu com uma nota emitida por uma marmoraria, também no Rio. No documento, no valor de R$ 416, constava a aquisição de “mármore branco”. Outras despesas chamam a atenção pelo improviso, como a suposta locação de veículos na Ximenes Rent a Car, em Porto Velho, Rondônia, por R$ 900. O gasto é comprovado por um recibo sem o número de registro da empresa no Fisco.

Para Geraldo Cavagnari, professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e especialista em inteligência estratégica, a maneira como são processados os gastos secretos da Abin atualmente abre caminho para as fraudes.

 

TUDO SOB SIGILO
Sede da Abin em Brasília. Mais de um quinto do orçamento da agência é consumido em gastos com cartões

 

 

 

Esse é um problema existente também em países onde os serviços secretos são altamente profissionais e têm orçamentos bilionários, como os Estados Unidos. Lá, não se sabe nem mesmo o número total de pessoas que trabalham para as 16 agências do governo americano envolvidas com atividades de inteligência, entre elas a Central Intelligence Agency (CIA). O orçamento também não é público, embora seja submetido ao crivo do presidente da República e de quatro comitês do Congresso. Segundo Benjamin Friedman, pesquisador do Cato Institute, especialista em defesa e contraterrorismo, o Congresso americano exerce seu poder de supervisão sobre as contas secretas menos do que deveria. Uma das razões é um contrato de confidencialidade que impede os parlamentares de tornar pública qualquer informação sobre o orçamento dos órgãos, mesmo quando não estão de acordo com seus gastos. Isso dá margem de manobra para que ninguém saiba exatamente a que se destina uma parte do orçamento dos órgãos de inteligência americanos. Segundo a revista eletrônica Salon.com, cerca de 70% dos gastos de inteligência dos EUA estariam sendo destinados a contratos privados impossíveis de fiscalizar.

No Brasil, existe uma comissão mista no Congresso Nacional – a Comissão de Controle da Atividade de Inteligência (CCAI) – encarregada de fiscalizar a Abin. Mas ela é totalmente inoperante. O atual presidente da CCAI é o deputado Marcondes Gadelha (PSB-PB), mas nem ele sabe disso. “Eu não sabia que essa comissão existia”, disse ele a ÉPOCA. Na última tentativa de reunir a comissão, não houve quorum. Até hoje, a CCAI, criada por lei em 1999 e formada no papel por três deputados e três senadores, não tem regimento próprio. Procurada por ÉPOCA, a direção da Abin informou que, por se tratar de informações secretas, não comentaria pontualmente as despesas citadas no relatório do TCU.

Sob a condição de anonimato, ex-dirigentes e funcionários de carreira da Abin ouvidos por ÉPOCA reconhecem problemas no emprego da verba secreta. A desordem foi uma das principais razões que levaram o novo diretor-geral da agência, Paulo Lacerda, a apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um plano de reestruturação do órgão. A idéia vingo Lacerda, diretor-geral da Polícia Federal até assumir o comando da Abin, em outubro passado, conseguiu criar uma assessoria de controle interno, subordinada diretamente a seu gabinete. Para o posto, nomeou um delegado da PF que fora um de seus homens de confiança. Internamente, a medida é vista como uma maneira de acompanhar de perto a aplicação dos recursos sigilosos. Lacerda também criou a Corregedoria da Abin, destinada a punir desvios de conduta. A transparência na dose exata pode ser a receita para transformar os milhões de reais gastos pela Abin em eficiência.

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

                       

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"É preciso ser justo antes de ser generoso"
Nícolas Chamfort

 

© 2008 Conselho dos Detetives da Bahia. Todos os Direitos Reservados
Leitura & Lazer

 

  Conselho dos Detetives da Bahia